domingo, 23 de maio de 2010



Mineral



Minha cidade imaginária não tem chão, ou melhor... Tem sim! Só que é transparente. Quando se anda pelas ruas, pisa-se sobre uma outra cidade. Ou será outro mundo? Não sei! Há dias que o humor está ácido. O dia está nublado e tudo parece um tédio, piso mais forte nesse chão. Então, ele se rompe... e lá vou eu, deslizando para meu mundo perfeito. Todo o lugar existe sobre as águas, e eu ando por entre árvores de folhas líquidas, verdes e ondulantes. Os pássaros mudam de forma como ondas do mar sob o vento. As pessoas escorrem pelo chão d’água, feito água mesmo, tudo é água. Ao pisar sobre elas (sem querer), elas me sorriem um riso molhado e fértil. Fértil porque desse sorriso brota outros.À margem desse chão corre uma biblioteca-rio continuamente, nela se pode ler todos os livros do mundo, e todos no idioma eu falo. Há também meu cachorro que morreu, ao me ver ele dança de alegria e eu de louca mesmo, mas uma loucura feliz. O lugar todo é magia molhada. É quando me dou conta que preciso voltar para minha realidade ilhada. E todas as vezes que tudo fica árido, é nesse outro mundo molhado que entro. É dele que volto... inteira mineral.



Nercy Luiza Barbosa

sábado, 27 de fevereiro de 2010




nosso nome


de tantas cores
às vezes
sou arco-íris de sangue policromo
enquanto dorme
minha verdade
minha colcha de retalhos
retalham a carne e o sobrenome
um abandono doce me toma
como a lembrança
do seu azul sobre mim
por sobre nós
nosso nome



Nercy Luiza Barbosa

terça-feira, 12 de janeiro de 2010




Vasto



Grande como um cavalo morto
lá está ela deitada por sobre o irônico prado verde
Ao redor - flores de papel e plástico
embelezam uma vida breve
como breve é o grande cavalo morto
E os vermes fazem festa
se fartam da matéria quase podre
quase doce, quase ela, quase pouco
Agora ela é ele, ela é grande
corre solta pelo prado amplo
sem gênero, sem sexo, sem amarras
morta - vive o que a vida lhe roubou
.é torto.





(Nercy Luiza Barbosa)





Solicitude


meu reflexo quebrado
adere ao mosaico-espelho
em suas fendas nossa história

nessa lenda
a palavra desvelo
escrita é
a sangue e zelo

o mosaico se desintegra
eu me perco



(Nercy Luiza Barbosa)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sem morrer


Não vou morrer nem mais nem menos,
vou viver, a mim me convenho.



Nercy Luiza Barbosa

segunda-feira, 29 de junho de 2009



sem nó
viver de palavras solidárias a mim
é estrangeiramente complexo
tenho de ser gentil comigo – erma
então o sou
penso a caridade voltada a mim
e
tremulo
o abismo meu oscila
permeia-me entre o existir eu
e o que trama se manifesta
penso que a palavra
é cura que ainda resta
mas há o amor... há amor
que de tão abstrato é matéria invisível
vez ou outra por ele sou tocada de forma sinestésica
matéria pulsante só encontrada na vida
e vida deve ser palavras se tocando
sem contato há somente uma palavra só
sem biografia
sem amarras
sem nó

Nercy Luiza Barbosa

domingo, 14 de setembro de 2008

picadeiro


procuro explicações
para tudo
o tempo todo
o tempo
dá suas respostas tortas

para ele (o tempo)
as coisas todas seguem um ciclo

e eu
só entendo de círculos
nem sempre uniformes
sinto dor e ela é circular

um circo




(Nercy Luiza Barbosa)
acromática


estou tão dentro de mim
que por pouco não sufoco

não me externo
nem me livro de mim

olho para fora isenta de cor
ver-me
fará com que eu me perca

vê o extensão do perigo?
eu vejo
e estou incolor


(Nercy Luiza Barbosa)





agora sou assim
desordenada

toda saudade
corre
pra dentro

sem fim






Nercy Luiza Barbosa


















segunda-feira, 31 de março de 2008

PSICO
Fórmulas
Implicam formas
Estabelecem regras
Que se rebelam
Envergam e se quebram

Frente à emoção
Não aderem a nenhuma delas
Desafiam estruturas antigas
Ainda que pareçam belas

Geram contradições
Admitem e conferem
O sinônimo da fera
Em segredos, vergonhas
E guerras

Fórmulas, formas e regras
É como aceitar todas as máscaras
De um Freud que não soma – zera
O que somente o inteiro revela
Nercy Luiza Barbosa