segunda-feira, 31 de março de 2008

MULHER DO TEMPO

Salvei-o em plena queda
Livrei-o do inferno da dor
Da solidão ácida
Que chovia em gotas condensadas
Como sangue árido
Esse!
Que agora congela e tange
Sua falsa face de anjo
Que no máximo
O faz aprendiz
Do que pensa
Do que diz

Sequei suas lágrimas estrábicas
Com sopro de mágica alegria
Aquela que não sou
Mas você quis
Vá embora!
Seu tempo acabou
Sou apenas uma meretriz
Já fiz tudo
Mais do que a profissão condiz
Dei-lhe escudo
E bala de anis
Se acha pouco
E quer bis
Leve também
A flor
de
Lis



Nercy Luiza Barbosa

PSICO
Fórmulas
Implicam formas
Estabelecem regras
Que se rebelam
Envergam e se quebram

Frente à emoção
Não aderem a nenhuma delas
Desafiam estruturas antigas
Ainda que pareçam belas

Geram contradições
Admitem e conferem
O sinônimo da fera
Em segredos, vergonhas
E guerras

Fórmulas, formas e regras
É como aceitar todas as máscaras
De um Freud que não soma – zera
O que somente o inteiro revela
Nercy Luiza Barbosa

EFEITO DOMINÓ EM TABULEIRO DE XADREZ


Escla, Re, Cido e Vital mudaram-se para minha rua numa daquelas tardes em que o sol lambe a linha do horizonte. Dia lindo para o que denominei “tabuleiro humano”.
Cido era o marido da rainha Escla, Re, a irmã e Vital, o cachorro de todos. Cido rei era um devasso dissimulado, amava uma irmã por vez, além, é claro, do pião Valdez, que morava ao lado e era cortês.
Não respeitaram a regra do jogo e não usaram o preservativo da sensatez. Re se deleitava de prazer, enquanto Valdez ostentava a condição de co-concubina com altivez. Escla desconfiava entre o sim e o talvez – afinal o amor é cego tanto quanto a estupidez.
Cido e Escla poderiam ter tido belos filhos, Maria, João e Inês; com Re teria sido felicidade a seis, mas Cido traiu a todas e a AIDS matou os três para depois sucumbir Valdez.
Agora Vital é mau agouro, ninguém o quer, a não ser Montenegro, ex-namorado de Valdez.
Relembrando essa história, percebo que toda segurança está comprometida comigo embaixo do chuveiro, escorrendo lenta, frágil e vermelha pelo ralo do banheiro.
Surge então a inevitável pergunta: serei eu a peça da vez? Eu que amei Montenegro por apenas um mês? Enquanto a reposta não vem, a vida continua com seu macabro jogo de xadrez.


Nercy Luiza Barbosa

domingo, 16 de março de 2008

des-alada



eu que já tive asas


que voei loucamente
sou agora queda brusca
vertigem
agonia
e
chão


Nercy Luiza Barbosa