quarta-feira, 9 de abril de 2014

uma coisa


uma coisa
  

tenho tempo e não tenho
o tempo me sobra por sobre o tédio
me falta pelo que a vida exige de mim

me esvazio

até não mais existir expectativas
não as crio para mim
não as dou para os outros
logo, logo morro
quero fazê-lo sem assombro
porque o tempo
esse é rápido-lento
e hoje

o tédio me engoliu inteira


Nercy Luiza Barbosa

sábado, 5 de março de 2011

não ser


tenho me seguido
feito sombra do meio-dia
e não me alcanço
quando canso

pauso
.
.
.
no parapeito do mundo

intrincada e distante
adentro noite-lua
um tanto pranto
outro crua
enquanto me busco
me desencontro
no encontro
com o medo que tenho
dessa vontade de morrer
Nercy Luiza Barbosa

Marco 0


eu sabia
em algum momento se esvairia de mim
a poesia
nesse tempo
uma aridez profunda me queimaria a alma
então eu não mais seria dentro
ao avesso

todo sol me queima as vísceras
à flor da vida
- todos os extremos - ferida
agonizo enquanto não me traduzo escrita
Nercy Luiza Barbosa

sábado, 26 de junho de 2010



uma coisa



tenho tempo e não tenho
o tempo me sobra por sobre o tédio da vida
me falta pelo que ela exige de mim
me esvazio
até não mais existir expectativas
não as crio para mim
não as dou para os outros
logo logo morro
quero fazê-lo sem assombro
porque o tempo
esse é rápido-lento
e hoje
o tédio me engoliu inteira



Nercy Luiza Barbosa





eterna


se findar-me
trouxesse um último momento com a consciência de estar me extinguindo
enfimo pegaria nas mãos
como quem seguraum infante frágil
delicado

gentil
o aninharia junto ao colo para sempre
para o sempre que desconheço
que deve ser de um azul ferido



Nercy Luiza Barbosa

domingo, 23 de maio de 2010



Mineral



Minha cidade imaginária não tem chão, ou melhor... Tem sim! Só que é transparente. Quando se anda pelas ruas, pisa-se sobre uma outra cidade. Ou será outro mundo? Não sei! Há dias que o humor está ácido. O dia está nublado e tudo parece um tédio, piso mais forte nesse chão. Então, ele se rompe... e lá vou eu, deslizando para meu mundo perfeito. Todo o lugar existe sobre as águas, e eu ando por entre árvores de folhas líquidas, verdes e ondulantes. Os pássaros mudam de forma como ondas do mar sob o vento. As pessoas escorrem pelo chão d’água, feito água mesmo, tudo é água. Ao pisar sobre elas (sem querer), elas me sorriem um riso molhado e fértil. Fértil porque desse sorriso brota outros.À margem desse chão corre uma biblioteca-rio continuamente, nela se pode ler todos os livros do mundo, e todos no idioma eu falo. Há também meu cachorro que morreu, ao me ver ele dança de alegria e eu de louca mesmo, mas uma loucura feliz. O lugar todo é magia molhada. É quando me dou conta que preciso voltar para minha realidade ilhada. E todas as vezes que tudo fica árido, é nesse outro mundo molhado que entro. É dele que volto... inteira mineral.



Nercy Luiza Barbosa