segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sem morrer


Não vou morrer nem mais nem menos,
vou viver, a mim me convenho.



Nercy Luiza Barbosa

segunda-feira, 29 de junho de 2009



sem nó
viver de palavras solidárias a mim
é estrangeiramente complexo
tenho de ser gentil comigo – erma
então o sou
penso a caridade voltada a mim
e
tremulo
o abismo meu oscila
permeia-me entre o existir eu
e o que trama se manifesta
penso que a palavra
é cura que ainda resta
mas há o amor... há amor
que de tão abstrato é matéria invisível
vez ou outra por ele sou tocada de forma sinestésica
matéria pulsante só encontrada na vida
e vida deve ser palavras se tocando
sem contato há somente uma palavra só
sem biografia
sem amarras
sem nó

Nercy Luiza Barbosa

domingo, 14 de setembro de 2008

picadeiro


procuro explicações
para tudo
o tempo todo
o tempo
dá suas respostas tortas

para ele (o tempo)
as coisas todas seguem um ciclo

e eu
só entendo de círculos
nem sempre uniformes
sinto dor e ela é circular

um circo




(Nercy Luiza Barbosa)
acromática


estou tão dentro de mim
que por pouco não sufoco

não me externo
nem me livro de mim

olho para fora isenta de cor
ver-me
fará com que eu me perca

vê o extensão do perigo?
eu vejo
e estou incolor


(Nercy Luiza Barbosa)





agora sou assim
desordenada

toda saudade
corre
pra dentro

sem fim






Nercy Luiza Barbosa


















segunda-feira, 31 de março de 2008

PSICO
Fórmulas
Implicam formas
Estabelecem regras
Que se rebelam
Envergam e se quebram

Frente à emoção
Não aderem a nenhuma delas
Desafiam estruturas antigas
Ainda que pareçam belas

Geram contradições
Admitem e conferem
O sinônimo da fera
Em segredos, vergonhas
E guerras

Fórmulas, formas e regras
É como aceitar todas as máscaras
De um Freud que não soma – zera
O que somente o inteiro revela
Nercy Luiza Barbosa

EFEITO DOMINÓ EM TABULEIRO DE XADREZ


Escla, Re, Cido e Vital mudaram-se para minha rua numa daquelas tardes em que o sol lambe a linha do horizonte. Dia lindo para o que denominei “tabuleiro humano”.
Cido era o marido da rainha Escla, Re, a irmã e Vital, o cachorro de todos. Cido rei era um devasso dissimulado, amava uma irmã por vez, além, é claro, do pião Valdez, que morava ao lado e era cortês.
Não respeitaram a regra do jogo e não usaram o preservativo da sensatez. Re se deleitava de prazer, enquanto Valdez ostentava a condição de co-concubina com altivez. Escla desconfiava entre o sim e o talvez – afinal o amor é cego tanto quanto a estupidez.
Cido e Escla poderiam ter tido belos filhos, Maria, João e Inês; com Re teria sido felicidade a seis, mas Cido traiu a todas e a AIDS matou os três para depois sucumbir Valdez.
Agora Vital é mau agouro, ninguém o quer, a não ser Montenegro, ex-namorado de Valdez.
Relembrando essa história, percebo que toda segurança está comprometida comigo embaixo do chuveiro, escorrendo lenta, frágil e vermelha pelo ralo do banheiro.
Surge então a inevitável pergunta: serei eu a peça da vez? Eu que amei Montenegro por apenas um mês? Enquanto a reposta não vem, a vida continua com seu macabro jogo de xadrez.


Nercy Luiza Barbosa

domingo, 16 de março de 2008

des-alada



eu que já tive asas


que voei loucamente
sou agora queda brusca
vertigem
agonia
e
chão


Nercy Luiza Barbosa

sábado, 23 de fevereiro de 2008

açoite



meu medo se ajoelha
ora frente ao altar
minhas pernas quedadas
derramam toda uma falta de coragem

então cresço humana
em humanidade pulcra
me direciono rumo à morte
não é brutal
não é súbita
é longa
a extensão do chicote



Nercy Luiza Barbosa

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

sonhos de Deus

sonhos de Deus não são meus

e de tão pequena desapareço

de tão intensa entorpeço

enquanto o dia me desce pela garganta

em recomeço

tento salvar meus sonhos

nos sonhos de Deus



Nercy Luiza Barbosa