domingo, 14 de setembro de 2008

picadeiro


procuro explicações
para tudo
o tempo todo
o tempo
dá suas respostas tortas

para ele (o tempo)
as coisas todas seguem um ciclo

e eu
só entendo de círculos
nem sempre uniformes
sinto dor e ela é circular

um circo




(Nercy Luiza Barbosa)
acromática


estou tão dentro de mim
que por pouco não sufoco

não me externo
nem me livro de mim

olho para fora isenta de cor
ver-me
fará com que eu me perca

vê o extensão do perigo?
eu vejo
e estou incolor


(Nercy Luiza Barbosa)





agora sou assim
desordenada

toda saudade
corre
pra dentro

sem fim






Nercy Luiza Barbosa


















segunda-feira, 31 de março de 2008

PSICO
Fórmulas
Implicam formas
Estabelecem regras
Que se rebelam
Envergam e se quebram

Frente à emoção
Não aderem a nenhuma delas
Desafiam estruturas antigas
Ainda que pareçam belas

Geram contradições
Admitem e conferem
O sinônimo da fera
Em segredos, vergonhas
E guerras

Fórmulas, formas e regras
É como aceitar todas as máscaras
De um Freud que não soma – zera
O que somente o inteiro revela
Nercy Luiza Barbosa

EFEITO DOMINÓ EM TABULEIRO DE XADREZ


Escla, Re, Cido e Vital mudaram-se para minha rua numa daquelas tardes em que o sol lambe a linha do horizonte. Dia lindo para o que denominei “tabuleiro humano”.
Cido era o marido da rainha Escla, Re, a irmã e Vital, o cachorro de todos. Cido rei era um devasso dissimulado, amava uma irmã por vez, além, é claro, do pião Valdez, que morava ao lado e era cortês.
Não respeitaram a regra do jogo e não usaram o preservativo da sensatez. Re se deleitava de prazer, enquanto Valdez ostentava a condição de co-concubina com altivez. Escla desconfiava entre o sim e o talvez – afinal o amor é cego tanto quanto a estupidez.
Cido e Escla poderiam ter tido belos filhos, Maria, João e Inês; com Re teria sido felicidade a seis, mas Cido traiu a todas e a AIDS matou os três para depois sucumbir Valdez.
Agora Vital é mau agouro, ninguém o quer, a não ser Montenegro, ex-namorado de Valdez.
Relembrando essa história, percebo que toda segurança está comprometida comigo embaixo do chuveiro, escorrendo lenta, frágil e vermelha pelo ralo do banheiro.
Surge então a inevitável pergunta: serei eu a peça da vez? Eu que amei Montenegro por apenas um mês? Enquanto a reposta não vem, a vida continua com seu macabro jogo de xadrez.


Nercy Luiza Barbosa

domingo, 16 de março de 2008

des-alada



eu que já tive asas


que voei loucamente
sou agora queda brusca
vertigem
agonia
e
chão


Nercy Luiza Barbosa

sábado, 23 de fevereiro de 2008

açoite



meu medo se ajoelha
ora frente ao altar
minhas pernas quedadas
derramam toda uma falta de coragem

então cresço humana
em humanidade pulcra
me direciono rumo à morte
não é brutal
não é súbita
é longa
a extensão do chicote



Nercy Luiza Barbosa

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

sonhos de Deus

sonhos de Deus não são meus

e de tão pequena desapareço

de tão intensa entorpeço

enquanto o dia me desce pela garganta

em recomeço

tento salvar meus sonhos

nos sonhos de Deus



Nercy Luiza Barbosa

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Designação



escolho entre nomes
um que não seja comum
porque há dentro do que sou
um oceano incomum de dois nomes

por certo meus pais acharam que eu seria um ser duplo
se enganaram
sou tantas e nenhuma

sou Nercy
assim
escrito em vermelho
a que sangra em vértice rodopiante
e sou Luiza
a de Jobim
a de ninguém
a de nenhum sentido exato
o exato não me veste bem
me cai tão desconfortavelmente
quanto o Tacacá do Acre


Nercy Luiza Barbosa

domingo, 5 de agosto de 2007


A Cor do Instante


Agora
no instante que devora
o próprio instante
sinto minha cabeça doer
se eu não tivesse cabeça eu doeria?
ela doeria?
esse sentir
deve ser coisa de viver
só vivo é quem sente...
alívio
no instante
indolor
e
indolor
não é
incolor
é
instante
é
cor


Nercy Luiza Barbosa